Antes mesmo de escolher o Direito, Raul Canal já se interessava pela medicina. Na adolescência, lia enciclopédias médicas e buscava compreender o funcionamento do corpo humano. A advocacia surgiu depois, mas não o afastou da saúde. Ao contrário, ofereceu-lhe uma forma própria de permanecer próximo desse universo: proteger juridicamente quem toma decisões complexas e lida diariamente com a vida.

Foi desse encontro entre ciência, ética e justiça que Canal construiu sua missão profissional. Passou, então, a defender um exercício médico mais seguro, com proteção aos profissionais e respeito aos pacientes.

Quando iniciou sua trajetória, o Direito Médico ainda ocupava espaço restrito no Brasil. Havia profissionais altamente qualificados do ponto de vista técnico, mas vulneráveis diante de sindicâncias, processos judiciais e questionamentos éticos. Temas como consentimento, prontuário, sigilo, publicidade e responsabilidade profissional eram pouco abordados na formação médica. Para Canal, aplicar conceitos jurídicos generalistas não bastava. Era preciso compreender a linguagem clínica, a rotina dos serviços, os limites da ciência e a complexidade do cuidado.

Essa percepção levou à fundação da Anadem, em 1998. A iniciativa nasceu para suprir uma lacuna: não existia uma estrutura permanente e especializada que acompanhasse profissionais de saúde de forma preventiva. Em geral, o advogado era procurado apenas depois que o conflito já havia se instalado. Canal propôs outro caminho, unindo defesa jurídica, prevenção, educação e conhecimento técnico especializado.

A consolidação exigiu persistência. No início, ainda prevalecia a ideia de que a excelência clínica seria suficiente para afastar riscos jurídicos. Com o tempo, a atuação preventiva demonstrou seu valor e ajudou a ampliar a compreensão de que prevenir conflitos é tão importante quanto oferecer uma defesa qualificada.

Ao longo de quase três décadas, Canal acompanhou uma mudança profunda na relação entre médicos e pacientes. O modelo predominantemente paternalista perdeu espaço para uma relação baseada em autonomia, informação e participação. O paciente passou a questionar condutas, buscar alternativas e compreender riscos e benefícios. Para o advogado, essa transformação é positiva, mas exige uma nova postura profissional.

“A qualidade da assistência deixou de depender apenas do domínio técnico e passou a envolver comunicação clara, consentimento efetivo, documentação adequada e decisões compartilhadas”, afirma.

Em sua visão, o médico contemporâneo precisa saber cuidar, informar e construir confiança.

Essa leitura se ampliou pela combinação de diferentes frentes de atuação. A advocacia mostrou as consequências concretas dos conflitos. A pesquisa o aproximou de evidências, limites e incertezas. A produção acadêmica exigiu clareza para transformar temas complexos em orientação prática. Já a liderança institucional revelou que muitos problemas não são apenas individuais, mas estruturais.

Sua aproximação com áreas como odontologia legal e medicina regenerativa reforçou uma convicção central: a ciência não avança de forma segura sem diálogo com a ética, a regulação e o Direito. Ao escrever livros sobre responsabilidade profissional, ética e jurisprudência médica, Canal procurou transformar experiências acumuladas em conhecimento compartilhado.

Para ele, o aprendizado obtido na prática não deveria permanecer restrito aos processos ou à experiência individual de um advogado.

“Um livro atravessa gerações, estimula o debate e transforma vivências particulares em aprendizado coletivo”, resume.

Hoje, sua atenção também se volta para os dilemas trazidos pela transformação tecnológica. Inteligência artificial, telemedicina, cirurgia robótica e ferramentas de apoio à decisão ampliam possibilidades, mas exigem critérios claros. Canal destaca a necessidade de definir responsabilidades quando sistemas participam de decisões clínicas, proteger dados de saúde, enfrentar vieses algorítmicos e garantir transparência, consentimento e supervisão humana.

Na telemedicina, aponta desafios relacionados à confidencialidade, à qualidade da avaliação e aos limites territoriais da atuação. Na cirurgia robótica, chama atenção para treinamento, manutenção dos equipamentos e atribuição de responsabilidades. O princípio, para ele, é inequívoco: “A tecnologia deve ampliar a capacidade do profissional, e não diluir responsabilidades ou retirar a dimensão humana do cuidado”.

A influência construída por Raul Canal não se apoia apenas no conhecimento técnico. Ele atribui sua legitimidade à coerência entre discurso e prática, somada à escuta, persistência, equilíbrio e firmeza. Também sintetiza sua forma de atuação no D.O.M. — domínio, organização e método. É preciso conhecer profundamente o assunto, organizar os recursos disponíveis e agir com consistência. Mas ressalta que nenhum método funciona sem respeito, sensibilidade e construção coletiva.

Ao longo dos anos, o próprio exercício da liderança também mudou. Canal admite que, por muito tempo, acreditou que acompanhar pessoalmente cada decisão era a melhor forma de garantir qualidade. O crescimento da instituição o levou a compreender que liderar também é confiar, formar equipes, estabelecer governança e criar processos capazes de produzir bons resultados para além da presença do fundador.

Outra revisão importante ocorreu na forma de compreender a proteção jurídica. Ela não pode começar depois do conflito, mas deve envolver prevenção, educação, gestão de riscos, segurança do paciente e proteção da reputação. Nesse processo, alguns princípios permaneceram inegociáveis: ética, verdade, rigor técnico, respeito às pessoas e responsabilidade com cada profissional que deposita confiança no trabalho da instituição.

Entre suas maiores realizações, Canal destaca ter contribuído para que o Direito Médico deixasse de ser visto como uma área periférica e passasse a ocupar espaço relevante no debate sobre a saúde brasileira. Mas ainda identifica um desafio sem resposta definitiva: a criação e a ampliação de varas especializadas em Direito da Saúde.

Para ele, as demandas médico-hospitalares exigem análise técnica capaz de considerar prontuários, protocolos, perícias, riscos inerentes e o contexto clínico de cada caso. Uma Justiça mais especializada poderia distinguir com maior precisão uma complicação inevitável de uma falha profissional, produzindo decisões mais equilibradas para médicos e pacientes.

Sua eleição entre os 100 Mais Influentes da Saúde de 2026 reconhece essa trajetória de pioneirismo, estruturação institucional e capacidade de ampliar o debate entre saúde, ética e Direito. Canal recebe o reconhecimento como responsabilidade e projeta um legado baseado em prevenção, transparência e diálogo.

“Influência não é poder pessoal, mas capacidade de mobilizar pessoas em torno de uma causa legítima”, afirma.

Para o futuro, deseja ver instituições sólidas, novas lideranças preparadas e um sistema de saúde em que profissionais e pacientes não estejam em lados opostos, mas sejam reconhecidos como partes essenciais da mesma relação de cuidado. 

Leia essa e outras matérias na edição 105 da Revista Heathcare Management